O incrível tempo em que os líderes mundiais divertiam o povo

Por Rodrigo Vizeu

A vitória do premiê conservador moderado Mark Rutte na Holanda acalmou o establishment europeu. Afinal, pelo menos um dos fantasmas da extrema direita no continente foi derrotado, no caso Geert Wilders, conhecido pelas ideias xenófobas, pela islamofobia e pelo cabelo tufado.

Mas o post não é sobre política holandesa, que provavelmente causa sonolência no leitor, ou sobre a ascensão de radicais na Europa.

O caso holandês só serve de exemplo de um drama que vivem os apreciadores do noticiário internacional de hoje: a absoluta ausência de líderes que despertem alegria e divirtam o povo.

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No país dos moinhos e do stroopwafel, dois tipos estavam em jogo. Um derrotado que, embora renda manchetes bombásticas, representava risco para a civilização. E um vencedor que, mesmo que intelectualmente coerente, é um figura anódina que garantirá anos de cobertura jornalística no geral tediosa.

Grosso modo, são as duas opções dadas no cenário político do Ocidente: de um lado, Donald Trump, Marine Le Pen, Alexis Tsipras; do outro, François Hollande, Angela Merkel, Mariano Rajoy.

Sem afinidades, os líderes não se gostam.

Resultado: temos encontros bilaterais embaraçosos como o abaixo entre Obama e Putin, onde um homem não consegue quebrar a tensão nem preparando chá com uma bota.

De tal deserto vamos à nostalgia, que nos leva ao passado, tema deste blog.

Mas não um passado tão distante. O ano da saudade é 1999. Dezoito anos atrás podíamos dizer que, ao menos sob meu prisma, a política internacional era uma festa.

Problemas como guerras, crises monetárias, desigualdade crescente e escândalos de toda sorte haviam, é claro.

Mas eram geridos por chefes de Estado e de governo bons vivants, o que certamente tornava tudo mais suportável. Inclusive para nós, espectadores.

Para onde olhássemos, havia figuras faceiras. Nos EUA, tínhamos Bill Clinton, que, não satisfeito em levar à frente um bom governo, era risonho e tocava saxofone.

Bill mantinha bromance sincero com o premiê britânico Tony Blair, que só deixaria de ser querido anos depois.

Ambos se davam bem com Jacques Chirac, o icônico presidente francês cujo charme e convivialité não pareciam ser ofuscados nem pelas acusações de envolvimento em casos de corrupção. É certo que parte considerável da opinião pública francesa não pensa o mesmo, mas o leitor entenderá o lado bom de Jacques nesta loja que o cultua por meio de estampas da camisetas e o slogan Smooth pimping, suave gangsterism.

Até onde hoje impera a sisudez ou a autocracia havia membros do dream team. Na Alemanha, o simpático Gerhard Schröder ficou conhecido como “chanceler Audi” ou “Senhor dos Anéis” após quatro casamentos.

Na Rússia, Bóris Iéltsin, que deixou o poder em 1999, o que explica nosso ano-corte, dispensa apresentações. Amistoso com Bill Clinton, bebia como poucos e parecia mais interessado em uma boa gargalhada do que em reconstruir seu país após décadas de comunismo.

Avistavam-se membros desse wine club de mandatários até em países periféricos, como no Brasil de Fernando Henrique Cardoso, outro que circulava com galhardia nas então agradabilíssimas cúpulas internacionais.

(Em tempos de polarização, o leitor talvez cobre a inclusão de Luiz Inácio Lula da Silva nessas reminiscências. Embora personagem vistoso e provavelmente mais desenvolto e festivo que FHC, a verdade é que Lula –e Barack Obama, diga-se– foram soluços tardios e solitários quando a regra já eram figuras como George W. Bush, Vladimir Putin e, argh, Nicolas Sarkozy. Convenhamos.)

Por que os ares da política mundial já foram tão mais respiráveis? Como foi possível conciliar ao mesmo tempo tantos governantes afáveis nas ideias e no trato? Como recuperar a nonchalance? E por que eles estavam sempre rindo tanto?

Alguns atribuirão ao clima de relativa concórdia pós-Guerra Fria. Aqueles anos 90 moleques, em que a globalização despertava ranger de dentes no máximo em fóruns em Porto Alegre ou em protestos em frente a reuniões da OMC.

Talvez em um mundo com terrorismo, crises migratórias, desemprego em alta e caixas de comentários na internet nunca mais voltemos a nos divertir despreocupadamente com nossos líderes.

Enquanto eleições não vêm, resta erguer um brinde à confraria de Bill, Tony, Jacques, Gerhard, Bóris e etc.

Longa vida aos dignitários festivos!