‘Em todos os círculos reina uma tranquilidade relativa’, relatava imprensa após ascensão de Hitler

Por Rodrigo Vizeu

Misturado ao choque, à incredulidade e ao medo manifestados após a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos, está um certo de desejo de que, vá lá, quem sabe não será tão terrível assim.

O wishful thinking se baseia no discurso volátil de Trump, que, após meses de fanfarronices, surpreendeu com um discurso conciliador pós-vitória.

Baseia-se também na expectativa (inclusive entre partes de seus eleitores, contou a enviada da Folha Isabel Fleck) de que campanha é mesmo tempo de exageros e que o novo presidente buscará um caminho de mais temperança agora que ganhou.

A torcida consiste ainda no fato de Trump supostamente ser menos interessado no envolvimento dos EUA em questões externas e que, diante de sua figura caótica, um isolacionismo americano pudesse até ser um mal menor.

Por fim, há sempre o sistema de pesos e contrapesos da democracia americana e a gama de interesses da elite econômica dos EUA para travar eventuais arroubos irracionais e populistas do novo presidente.

Essa relativa e comedida tentativa de ver luz no fim do túnel que começa a pipocar faz valer lembrar como foi o day after da chegada de Adolf Hitler ao poder na Alemanha.

(Faz-se, claro, todas as ressalvas à surrada e imprecisa comparação, que inclusive virou meme recente, copiado abaixo. É certo que Trump não é Hitler e não há registros de que o republicano tenha estruturado uma plataforma racista com potencial de levar ao extermínio de povos. Mas ainda resta o paralelo do outsider que não era levado a sério pela elite e chegou ao poder com discurso agressivo e nos ombros da raiva e do ressentimento popular)

‘Zeladores fiéis’

Em 31 de janeiro de 1933, um dia após a indicação de Hitler como chanceler, despacho vindo de Berlim da agência United Press contemporizava que embora fosse “indiscutível que esse fato representasse um acontecimento de importância histórica”, a elite alemã tinha um plano.

Desafeto de Hitler, o presidente alemão Paul von Hindenburg dava a chance para que o nazista formasse um governo para tentar tirar a Alemanha do impasse, já que nenhum dos grupos políticos saía das eleições com ampla maioria. O idoso marechal, porém, cercou o novato de conservadores mais moderados e experimentados.

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Hitler e seu gabinete, integrado por nazistas, mas também por conservadores moderados ligados a Hindenburg

“O presidente alemão empenhou-se em rodear o novo chanceler de zeladores fiéis da antiga ordem das coisas”, explicava a United Press. “Essas restrições impostas à autoridade do chefe nacional-socialista são de natureza a neutralizar muitos de seus propósitos de implantar na Alemanha um regime que apresente afinidades com o fascismo italiano.”

Discurso pós-vitória

Hitler jurou fidelidade à Constituição e prometeu respeitar as leis. Não dissolveu imediatamente o Partido Comunista, arquirrival dos nazistas.

Em discurso aos aliados, registrou o francês “Le Figaro”, exaltou a união dos nacionalistas alemães e falou de “recriar uma Alemanha baseada na honra, na liberdade e na paz social”.

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O novo chanceler alemão é saudado por populares após ser indicado para a chefia do governo

Os políticos católicos de centro abstiveram-se de fazer oposição e decidiram tolerar provisoriamente o novo governo.

Em meio às festas dos camisas pardas nazistas pelas ruas alemãs, houve confronto com comunistas, mas as desordens foram sem maior gravidade, relatou a UP.

“Vinte e quatro horas após a ascensão ao poder do sr. Hitler, tem-se a impressão de que houve uma modificação, na opinião geral, sobre o ‘hitlerismo’. Pode-se dizer quem em todos os círculos reina uma tranquilidade relativa”, escrevia a UP em 1º de fevereiro de 1933.

‘Golpe mortal’

Menos tranquilo parecia o germanista Raymond Henry, do “Figaro”, que via um “golpe mortal” na Constituição e no parlamentarismo. “Infelizmente, não se pode crer em suas palavras, e é preciso esperar seus atos.”

“Trata-se da instauração da ditadura em benefícios dos grandes industriais, dos proprietários de terra e dos militares”, escreveu. “[A vitória de Hitler] significa que que diante da impossibilidade de fazer coexistir o regime autoritário e o constitucional, é o último que deverá ceder seu lugar.”

Previa ainda o “grave perigo” que o nazista representava “do ponto de vista exterior”.

Meses após vencer e fazer os devidos juramentos, Hitler alienou seus “zeladores”, cassou liberdades, prendeu opositores, retirou poderes do Parlamento e passou a governar com plenos poderes. Tornava-se o Führer.

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Meme que circulou antes da eleição de Trump, assinado pelo “povo da Alemanha”, comparando-o a Hitler