Enquanto você publica sua foto de criança, 12 de outubro é dia de treta na Espanha

Por Rodrigo Vizeu

Quem passa o 12 de outubro em um clima ameno de brinquedos, fotos de crianças em redes sociais e eventuais referências a Nossa Senhora Aparecida talvez não conheça o clima conflagrado que a data ganha a alguns milhares de quilômetros daqui.

O dia vem a ser, na Espanha, de Festa Nacional –um equivalente ao nosso 7 de Setembro.

Agora, se no Brasil a data nacional se passa sem maiores controvérsias históricas, não é o caso dos espanhóis.

Isso porque a data máxima da Espanha tem tudo a ver com a colonização da América –iniciada em 12 de outubro de 1492, quando o genovês Cristóvão Colombo desembarcou no Novo Continente a soldo da Coroa espanhola.

Outra ilustração da chegada de Colombo. Note que, se na imagem anterior os índios aparecem no canto, nessa eles desaparecem
Outra ilustração da chegada de Colombo. Note que, se na imagem anterior os índios aparecem no canto, nessa eles desaparecem

Inicialmente chamada de Día de la Raza (Dia da Raça), no caso, a espanhola, a festa começou a ser chamada de Día de la Hispanidad a partir dos anos 1930.

A partir dessa época, a data, que já tinha potencial de causar relativa treta por celebrar um processo de colonização que impôs a cultura e a religião europeia aos nativos e levou à morte de milhões deles, conseguiu ficar ainda mais polêmica.

A exaltação patriótica e da “raça” espanhola tinha tudo a ver com a ideologia do regime do general Francisco Franco, que comandou a vitória dos nacionalistas na Guerra Civil Espanhola em 1939 e governou o país em um regime de inspiração fascista até os anos 1970.

Ilustração do ditador Francisco Franco
Ilustração do ditador Francisco Franco

O ranço que ligava a data ao franquismo fez com que, já sob a democracia, em 1987, a expressão hispanidad fosse oficialmente substituído por Festa Nacional da Espanha.

Mas a lei que instituiu a data seguia afirmando que ela “simboliza a efeméride histórica na qual a Espanha, a ponto de concluir um processo de construção do Estado a partir de nossa pluralidade cultural e política, e a integração dos reinos da Espanha em uma mesma monarquia, inicia um período de projeção linguística e cultural além dos limites europeus”.

Eis um prato cheio para irritar 1) os diferentes grupos separatistas dentro do país; 2) os opositores do regime monárquico; e 3) os críticos à exaltação do colonialismo dentro da Espanha e em suas ex-colônias.

Sobre o terceiro ponto, o tal Día de la Raza se espalhou pelos países de língua espanhola (No Brasil, também temos um em geral ignorado Dia da Raça em 5 de setembro, herança do Estado Novo de Getúlio Vargas).

Mas, nas ex-colônias espanholas, reações a ideia de ter uma data para celebrar os colonizadores levaram alguns governos de esquerda a mudar seu nome para Dia do Respeito à Diversidade Cultural, no caso da Argentina, ou um mais direto Dia da Resistência Indígena, na Venezuela e na Nicarágua.

Cartaz de 1947 celebra o Dia da Raça na Argentina
Cartaz de 1947 celebra o Dia da Raça na Argentina

Enquanto isso, nesta quarta, na Espanha, mais uma vez diversos grupos se rebelaram contra a festa. Prefeitos rebeldes mantiveram repartições funcionando (a Prefeitura de Madri enfeitou um de seus prédios com uma whipala, bandeira indígena que celebra o multiculturalismo), movimentos de esquerda ou antimonarquistas repudiaram publicamente as celebrações e uma miríade de artigos reclamando da data foram publicados na imprensa espanhola.

Nada disso impediu, claro, que o rei Felipe 6º oferecesse uma recepção para 1.300 convidados em seu palácio e 3.500 militares desfilassem pelas ruas de Madri.