Como os puritanos roubaram o Natal

Por Rodrigo Vizeu

Em meados do século 17, os ingleses celebravam o Natal de forma não muito diferente de hoje. Lembravam do nascimento de Jesus Cristo, trocavam presentes, bebiam, comiam coisas típicas do período, festejavam e o comércio fechava no dia 25 de dezembro.

Os puritanos, protestantes que reivindicavam uma reforma que se afastasse da forma mais radical possível do cristianismo da linha católica apostólica romana, não gostavam nada disso. Repudiavam como o Natal bebia na fonte dos rituais pagãos pré-cristãos, seja pela forma ou pela época em que era comemorado.

Para eles, faltava celebração do Cristo e sobrava extravagância, desperdício e imoralidade. Detestavam a data séculos antes de Dr. Seuss escrever “Como o Grinch roubou o Natal”.

A reclamação puritana deixou de ser apenas uma chiadeira à medida em que o Parlamento inglês, dominado pelos puritanos, ganhava força e contestava o poder do rei Carlos 1°, de tendências absolutistas e simpático a uma reforma protestante mais suave.

Em 1643 e 1644, os parlamentares chegaram a se reunir normalmente no Natal. Em 1647, o Parlamento enfim aboliu as festividades natalinas –e também as de Páscoa. Outras medidas que impunham uma vida mais austera aos ingleses foram aplicadas.

Em guerra civil contra Carlos 1°, o grupo pró-Parlamento foi vitorioso e o rei, executado em 1649. Novas legislações anti-Natal foram colocadas em prática, como ordens obrigando lojas e mercados a permanecerem abertos no dia 25 e proibindo cerimônias especiais em igrejas.

O banimento do Natal –apoiado por Oliver Cromwell, que se tornou o Lord Protector da Inglaterra sem rei– não ocorreu sem resistências. Revoltas eclodiram pelo país e os ingleses recorreram a cerimônias natalinas clandestinas.

natal
Panfleto de 1652 relatando que Natal seguia sendo celebrado na Inglaterra apesar das proibições

Grinch nos Estados Unidos

Com o o colapso do Protetorado de Cromwell e a restauração da monarquia sob Carlos 2°, em 1660, o Natal voltou à legalidade na Inglaterra.

A má vontade com a festa, porém, atravessou o Atlântico. A América inglesa foi colonizada em larga medida por puritanos, que consequentemente não queriam saber dos rituais natalinos.

natal2
Cartaz com proibição de festejos de Natal ameaçando com multa quem recorresse às “práticas satânicas”

De 1659 a 1681, quem celebrasse a data em Massachusetts pagava multa. Mesmo quando não era alvo de punição, a comemoração do Natal na América inglesa foi incomum ou mal-vista mesmo ao longo do século 18 e após a independência. O feriado para celebrar o nascimento de Cristo só se tornou feriado federal nos EUA em 1870.


Este blog deseja um ótimo Natal e um 2016 de boas histórias –e sem muito puritanismo.