Político romano que inspirou nome de ação da PF acabou punido e exilado após evitar golpe

Por Rodrigo Vizeu

A Polícia Federal decidiu homenagear o cônsul de Roma e orador Marco Túlio Cícero (106 a.C. – 43 a.C.) e seus discursos na nova fase da Operação Lava Jato. A ofensiva retórica de Cícero ficou famosa e o ajudou derrotar uma conspiração contra a república romana.

Tempos depois, porém, a sorte de Cícero virou e ele acabou punido e exilado pela forma que derrotou aquela mesma conspiração.

As Catilinárias de Cícero são uma série de quatro discursos proferidos pelo cônsul para os senadores de Roma a partir do ano de 63 antes de Cristo. Referem-se ao senador Lúcio Sérgio Catilina, acusado de questionar o poder do Senado e tentar um golpe contra o regime.

O discurso de Cícero começa assim:

Até quando, ó Catilina, abusarás da nossa paciência? Por quanto tempo ainda há de zombar de nós essa tua loucura? A que extremos se há de precipitar a tua audácia sem freio? Nem a guarda do Palatino, nem a ronda noturna da cidade, nem os temores do povo, nem a afluência de todos os homens de bem, nem este local tão bem protegido para a reunião do Senado, nem o olhar e o aspecto destes senadores, nada disto conseguiu perturbar-te? Não sentes que os teus planos estão à vista de todos? Não vês que a tua conspiração a têm já dominada todos estes que a conhecem? Quem, de entre nós, pensas tu que ignora o que fizeste na noite passada e na precedente, em que local estiveste, a quem convocaste, que deliberações foram as tuas? Oh tempos, oh costumes!

Catilina, que começara aquele dia ainda com aliados, ficou sozinho e fugiu de Roma para preparar seu ataque.

Maccari-Cicero
Pintura de Cesare Maccari (1840-1919) retrata primeiro discurso de Cícero contra Catilina, no Templo de Júpiter

O discurso entrou para a história como primor da retórica. Ajudou a alçar a popularidade do cônsul e preparar a defesa contra o exército do senador golpista.

Cícero venceu a batalha e prendeu parte dos aliados de Catilina, convencendo em seguida o Senado, com base em uma espécie de lei marcial, a decidir pela pena de morte para os conspiradores.

Pouco após a execução de seus comparsas, Catilina morreu no campo de batalha com o que sobrou de suas tropas. Cícero ganhou o honraria de “pai da pátria” por debelar o complô.

Virada

Em 58 a.C., no entanto, Cícero, agora sem o poder consular nas mãos, virou alvo de um adversário, o tribuno Públio Clódio Pulcro, que publicou uma lei para punir o ex-cônsul pela decisão de executar cidadãos de Roma sem um devido julgamento formal –exatamente o caso dos conspiradores de Catilina.

A medida contou com o apoio do novo cônsul da república, Júlio César, que havia se oposto à decisão de anos antes de Cícero. O primeiro integrava o chamado grupo dos populares, mais afeitos a agradar as massas, enquanto o segundo era um dos optimates, conservadores mais ciosos da perda de poder do Senado e da aristocracia.

Assim, com a nova lei, Cícero foi exilado na Grécia. “Embora muitas pessoas o visitassem de boa vontade, e as cidades gregas competissem entre si para enviar delegações, ele passou a maior parte do seu tempo em abatimento e grande pesar, olhando em direção à Itália como um amante desconsolado”, escreveu o historiador Plutarco.

Cícero acabou reabilitado após mais de um ano de exílio, retornou e voltou a ganhar popularidade. Mas, anos mais tarde, anos após a morte de César, indispôs-se com Marco Antônio, seu sucessor e novo homem forte de Roma, e foi assassinado.

O corpo de Cícero teve cabeça e mãos cortadas. Segundo relato do historiador Dião Cássio, a mulher de Marco Antônio, Fulvia, arrancou e perfurou com um prendedor de cabelo a língua daquele que proferira as Catilinárias e se tornara um dos maiores oradores da Roma antiga.

Catilina, por sua vez, teve seu legado negativo parcialmente revisto ao longo dos séculos –inclusive em um discurso do próprio Cícero, que reconheceu qualidades do adversário morto. Outros apontam no senador golpista méritos como coragem, habilidade militar e intenções reformistas.