Alguns séculos de acasos, erros e ambiguidades

Por Rodrigo Vizeu

Comecemos isso aqui com quatro histórias que vão da Idade Média aos anos 80, da corte chinesa à corte feita a um presidente. Histórias de sorte, azar ou de ambos.

Acasos

Em 10 de junho de 1190, Frederico Barbarossa era imperador do Sacro Império Romano-Germânico e avançava em direção a Jerusalém para tomá-la do sultão Saladino. O exército de Barbarossa era uma das grandes apostas da Terceira Cruzada, que incluía ainda as tropas do reis Ricardo Coração de Leão, da Inglaterra, e Filipe Augusto, da França.

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Ilustração de Frederico Barbarossa (1881 Young Persons’ Cyclopedia of Persons and Places)

Considerado um gênio político e militar que expandiu o poder germânico e desafiou papas, Barbarossa conseguira arregimentar um exército de até 100 mil para tomar a Terra Santa. Naquele 10 de junho, o imperador decidiu entrar em um rio que corta a atual Turquia, não se sabe muito bem se para atravessá-lo ou para se refrescar. Barbarossa, que usava uma pesada armadura, acabou levado pela correnteza e morreu afogado.

Sem líder, o exército germânico acabou se dissolvendo. Os cruzados ingleses e franceses conseguiram algumas vitórias, mas não conseguiram tomar Jerusalém dos muçulmanos.

Erros

Na manhã do dia 3 de outubro de 1793, o conde britânico George Macartney, enviado pelo rei George 3º à China com a missão de aproximar os dois países, foi acordado e convocado à Cidade Proibida. Lá, aguardava-o sobre o trono não o imperador Qianlong, mas uma carta escrita pelo imperador para o rei, tida como uma das mais humilhantes dos anais da diplomacia britânica.

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Gravura do imperador chinês Qianlong de autoria de Giuseppe Castiglione (Harvard University/Creative Commons)

“Nossas cerimônias e códigos legais diferem tão completamente das vossas que, mesmo se vosso Enviado fosse capaz de adquirir os rudimentos de nossa civilização, vós não poderíeis de forma alguma transplantar nossos hábitos e costumes para vosso solo estrangeiro”, afirma o imperador chinês. Em seguida, Qianlong desdenha da oferta britânica de comércio entre os países e de acesso às novas tecnologias ocidentais: “Objetos estranhos e caros não me interessam (…) Como vosso Embaixador pôde ver por si mesmo, nós possuímos todas as coisas”. Por fim, o monarca chinês diz que seu homólogo britânico tem o “dever” de “obedecer essas instruções daqui em diante e para sempre, de forma que desfruteis as benções da paz perpétua”.

Com o tempo, com a resistência da rica e isolacionista China em se abrir, as missões pacíficas do Ocidente se transformaram em guerras perdidas pelos chineses, que acabaram subjugados por potências militarmente superiores até a metade do século 20.

Gente

Em 22 de dezembro de 1941, iniciava-se a primeira conferência entre líderes de EUA e Reino Unido na Segunda Guerra Mundial. Pearl Harbor fora atacada, americanos declararam guerra ao Eixo e Winston Churchill desembarcava em Washington atrás do engajamento da maior potência do mundo e de seu presidente, Franklin D. Roosevelt.

ORG XMIT: 240101_0.tif Presidente dos EUA e o primeiro-ministro britânico durante a Conferância Atlântica, em 1941, durante a 2ã Guerra Mundial. (FOR USE AS DESIRED WITH PEARL HARBOR ANNIVERSARY STORIES--FILE--President Franklin D. Roosevelt, left, and British Prime Minister Winston Churchill confer after church services aboard the battleship Prince of Wales during the Atlantic Conference at Argentia Bay off Newfoundland in this Aug. 10, 1941 file photo.) (AP Photo/FILE)
Presidente americano Franklin D. Roosevelt conversa com primeiro-ministro britânico Winston Churchill a bordo do navio Príncipe de Gales em 1941. Crédito: Associated Press

O encontro definiu as bases da relação íntima, direta e franca entre os dois, apesar de constantes discordâncias. Churchill se hospedou na Casa Branca, e ficou célebre um episódio em que Roosevelt teria entrado sem bater no quarto de Churchill, que acabara de sair do banho e estava nu. A um constrangido Roosevelt, o inglês teria afirmado: “O primeiro-ministro da Grã-Bretanha não tem nada a esconder do presidente dos Estados Unidos”.

Relatada por algumas fontes, a história é negada por outras. Nos relatos do próprio Churchill ela aparece em diferentes momentos como verdadeira e falsa. De qualquer forma, simboliza a relação dos dois homens. Aquela conferência inicial firmou a aliança e estabeleceu regras que valeriam até o fim do conflito: a necessidade primordial de derrotar a Alemanha nazista e o compromisso de não estabelecer paz em separado ou reduzir o esforço de guerra até o cumprimento final desse objetivo.

Sutilezas

Em 21 de abril de 1985, Tancredo Neves, presidente eleito do Brasil, morreu após mais de um mês de agonia. O fim daquele que seria o primeiro presidente civil após 21 anos de ditadura militar levou a frustração e o presidente que não foi acabou virando símbolo e ideal de democracia. Entre suas características que ficaram para a história estão a moderação e o espírito conciliador exaltados até hoje da esquerda à direita.

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Tancredo Neves cumprimenta José Sarney, observado pelo neto Aécio. Crédito: Jorge Araújo/Folhapress

Há, porém, formas menos entusiasmadas de ver a biografia de Tancredo: nos anos mais duros e sangrentos da ditadura, o então deputado federal –que integrava a oposição consentida do MDB– teve atuação discreta. Além disso, em 1982, o então candidato a governador de Minas recebeu uma doação eleitoral do mesmo Paulo Maluf, aliado da ditadura, que ele enfrentaria três anos depois no colégio eleitoral. Por fim, enquanto a campanha das Diretas-Já incendiava o país, Tancredo a apoiava, mas também já negociava e preparava terreno para o caso de a emenda do voto direto não passar –hipótese na qual ele seria o candidato natural, o que acabou acontecendo.

Essa elogiada habilidade de acomodar interesses díspares e negociar com todos os lados por vezes não rende as mesmas lisonjas a alguns dos homens públicos que a ela recorrem hoje.


As quatro histórias acima relatadas mostram quatro constantes da história. Ela é feita de acasos que mudam tudo –como o acidente de Barbarossa–, de erros de cálculo que comprometem nações –caso da China imperial–, de relações humanas que acabam ofuscadas pela grandiosidade dos acontecimentos –como no caso de Churchill e Roosevelt– e por personagens mais complexos e ambíguos do que os livros acabam por retratar, tal qual Tancredo.

São a histórias assim que pretendo me dedicar aqui. Espero que goste.